Letras

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

De todas as coisas certas

cânone (2015)
com frases de Um homem é um homem de B. Brecht

de todas as coisas certas
a mais certa e sabida é a dúvida
de todas as coisas certas
a mais certa e sabida é a dúvida
e ouvi muitas dizer de muitas coisas:
"é certo e sabido"

Saio de casa

cânone (2015)

saio de casa
saio de casa
vento na cara
e pé no chão

e pé no chão
vento na cara
saio de casa
cinco ideias tem a mão

Como uma pedra no silêncio

Poema de Mário Dionísio
Música de Pedro Rodrigues e Coro da Achada

como uma pedra no silêncio
como um chicote na moleza
 o pensamento preciso sem cerimónia
dá um passo

o ponteiro do relógio com ferrugem
embota as hélices frementes
mas na cilada dos divãs crescente
o pastor de macaco pensa que
não basta cruzar os braços

não basta cruzar os braços
esperar a lua entre nuvens
enquanto a paisagem se derrama
não basta pensar um dia

roldanas prontas nos guindastes
rolam pesados cabos de aço
é preciso criar os dias
é preciso criar o sentido dos dias

Ronda dos paisanos

José Afonso
LP Baladas e canções, 1964

Ao cair da madrugada
No quartel da guarda
Senhor general
Mande embora a sentinela
Mande embora e não lhe faça mal

Ao cair do nevoeiro
Senhor brigadeiro
Não seja papão
Mande embora a sentinela
Mande embora a sua posição

Ao cair do céu cinzento
Lá no regimento
Senhor coronel
Mande embora a sentinela
Mande embora e deixe o seu quartel

Ao cair da madrugada
Depois da noitada
Senhor capitão
Mande embora a sentinela
Mande embora o seu guarda-portão

Ao cair do sol nascente
Venha meu tenente
Deixe a prevenção
Mande embora a sentinela
Mande embora e tire o seu galão

Ao cair do frio vento
Primeiro sargento
Junte o pelotão
Mande embora a sentinela
Mande embora e cale o seu canhão

Ao cair do sol doirado
Venha meu soldado
Largue o seu punhal
Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal
Vá-se embora sentinela
Vá-se embora que aí fica mal

Só ouve o brado da terra

José Afonso
álbum Coro dos Tribunais, 1974

Só ouve o brado da terra
Quem dentro dela veio a nascer
Agora é que pinta o bago
Agora é qu'isto vai aquecer


Cala-te ó clarim da morte
Que a tua sorte não hei-de eu querer
Mal haja a noite assassina
E quem domina sem nos vencer

(lalala)

Cobrem-se os campos de gelo
Já não se ouve o galo cantor
Andam os lobos à solta
Pega no teu cajado, pastor

Homem de costas vergadas
De unhas cravadas na pele a arder
É minha a tua canseira
Mas há quem queira ver-te sofrer

(lalala)

Anda ver o Deus banqueiro
Que engana à hora e que rouba ao mês
Há milhões no mundo inteiro
O galinheiro é de dois ou três

Só ouve o brado da terra
Quem dentro dela veio a nascer

Comida

Titãs (1987)

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?


A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade

Bebida é água
Comida é pasto
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida, diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida como a vida quer

A gente não quer só comer
A gente quer comer e quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro e não pela metade

(Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh
Necessidade, vontade, eh
Necessidade)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Das quietações

criação colectiva do coro da Achada para o espectáculo Não se pode viver sem utopia (2016)
 
Sempre me pergunto porquê
será que que que que que que que
como acabar com com com com com com
preocupa-me que se...
inquieta-me que não...
revolta-me que tudo...
se isto, porque aquilo?
será isto capaz d'aquilo?
que fazer com?
qual o caminho?
 
com isto a aumentar
e aquilo a diminuir
o que nos espera?
como é que se consegue?
como é que se fariam?
será que ainda há?
para quando para todos?
não quero.
 
como fazer isto para aquilo
por isto e não por aquilo,
por aquilo e não por isto?
podemos nós aqui
fazê-lo?
quando e como?
 
isto está cada vez mais oso
elas cada vez mais adas
cada um parece ser
cada vez mais ista
cada vez mais lista
cada vez mais alista
cada vez mais ualista
cada vez mais dualista
idualista
vidualista
ividualista
dividualista
cada vez mais in...
 
que fazer? que fazer?
como lutar contra? combater?
como acabar com? que fazer?
ou isso já não interessa a ninguém?