Letras

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O viandante

O viandante
poema de Carlos de Oliveira
música de Pedro Rodrigues


Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Ao passar na Mouraria

Ao passar na Mouraria
(com a música da canção popular «Ao passar a ribeirinha» e de «Quatro quadras soltas» de Sérgio Godinho)
letra escrita numa oficina de canções na Casa da Achada
Junho de 2018

Ao passar na Mouraria
Tropecei num sarraceno
Não era trigo nem joio
Era o meu irmão moreno

Donde vens tu ó amigo?
Venho de longa jornada
Não tenho papéis nem visto
Amanhã não faço nada...

Mas sou quase teu vizinho
E moro num pardieiro
Sem papéis e sem pilim
Nem cama de corpo inteiro

À falta de papelada
Diz a lei dos burocratas
Se o gajo vem das Arábias
Só merece um vão der escadas

Não sou pedra nem calhau
Posso andar para mudar
O meu lugar
Para mudar o meu lugar
Para mudar

(continua com a música das «Quatro quadras soltas»)
E por não ter documentos
Fui ao SEF e pus-me à espera
Mas faltava-me uma carta
E o carimbo que não dera

Então fui recambiado
Sem emprego nada feito
E para arranjar trabalho
Procuro papel de jeito

Se lá eras engenheiro
Cá serás pá de pedreiro
Eu não sei donde tu vens
Mas és mais que os teus papéis

Dão-lhe biscates nas obras
Ao negro e sem regalias
Come merda se houver sobras
Nos bairros com moradias

No Largo de São Domingos
Caminhava rente às casas
Entre vapores e pingos
Como pássaro sem asas

Há quem o olhe de lado
Julgando que é do daesh
Se foste colonizado
Pagas caro e sempre em cash

Não sou pedra nem calhau
Posso andar para mudar
O meu lugar
Para mudar o meu lugar
Para mudar




Problema agudo n.º 1

Problema agudo n.º 1 (cadavre exquis)
Letra e música criadas numa oficina de canções na Casa da Achada em Junho de 2018

quando o intestino aperta
e a alma quer sair
daqui
não


água de beber às cabras
que os campos estão secos
secos também estão
mas nós trazemos água

com a água regamos
e cresce e cresce e cresce
aparece! salta! foge!
deita! rebola! anda! busca!

medidas inteiras redondas
meias bêbadas quase
malucas as buscas brutas
brutas que nem umas portas

solo:
é um problema agudo
e uma questão grave
que não vão lá com meias medidas

toda a gente:
que bem medida
não há meia
nem sapato

medida meia
não é meia
nem sapato

«isso é outra questão»

Ontem a pedra


Ontem a pedra
Poema n.º 22 de «Le feu qui dort», de Mário Dionísio (tradução do francês de Regina Guimarães)
Música criada numa oficina da Casa da Achada em Junho de 2018


Ontem
a pedra

Amanhã
a mão

Agora
desejo apenas

Ontem
a mão

Amanhã
a pedra

Depois de amanhã
as pedras

Quem passa diz
zás

Coro dos caídos

Coro dos caídos
Letra e música de José Afonso
Arranjo do coro da Achada

Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia

Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência

Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras

Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Primavera nos dentes

Poema de João Apolinário de «Morse de Sangue»
Música: Pedro Rodrigues/ coro da Achada

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
e no centro da própria engrenagem
inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera.

Vós, que lá do vosso império

Cânone de Pedro R. (Set. 2017)
Quadra de António Aleixo


Vós, que lá do vosso império,
Prometeis um mundo novo,
Calai-vos que pode o povo
Querer um mundo novo a sério