O cavaleiro e o anjo
letra e música: Zeca Afonso
arranjo: coro da Achada
Passos da noite
Ao romper do dia
Quantos se ouviram
Marchando a par
Batem à porta
Da hospedaria
Se for o vento
Manda-o entrar
Vejo uma espada
De sombra esguia
Se for o vento
Que venha só
Quem está lá fora
Traz companhia
Botas cardadas
Levantam pó
Venho de longe
Sem luz nem guia
Sou estrangeiro
Não sou ninguém
Na flor queimada
Na cinza fria
Nunca se passa
Uma noite bem
Foge estrangeiro
Da morte escura
Pega nas armas
Vem batalhar
E enquanto a lua
Nao se habitua
Dorme ao relento
Até eu voltar
Há muito tempo
Que te nao via
(Um anjo negro
Me vem tentar)
Batem a porta
Da hospedaria
É aqui mesmo
Que eu vou ficar
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
O viandante
O viandante
poema de Carlos de Oliveira
música de Pedro Rodrigues
poema de Carlos de Oliveira
música de Pedro Rodrigues
Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.
fugiu a cor às estrelas:
e, estrela nos campos tristes,
só tu, miséria, nos velas.
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Ao passar na Mouraria
Ao passar na Mouraria
(com a música da canção popular «Ao passar a ribeirinha» e de «Quatro quadras soltas» de Sérgio Godinho)
letra escrita numa oficina de canções na Casa da Achada
Junho de 2018
Ao passar na Mouraria
Tropecei num sarraceno
Não era trigo nem joio
Era o meu irmão moreno
Donde vens tu ó amigo?
Venho de longa jornada
Não tenho papéis nem visto
Amanhã não faço nada...
Mas sou quase teu vizinho
E moro num pardieiro
Sem papéis e sem pilim
Nem cama de corpo inteiro
À falta de papelada
Diz a lei dos burocratas
Se o gajo vem das Arábias
Só merece um vão der escadas
Não sou pedra nem calhau
Posso andar para mudar
O meu lugar
Para mudar o meu lugar
Para mudar
(continua com a música das «Quatro quadras soltas»)
E por não ter documentos
Fui ao SEF e pus-me à espera
Mas faltava-me uma carta
E o carimbo que não dera
Então fui recambiado
Sem emprego nada feito
E para arranjar trabalho
Procuro papel de jeito
Se lá eras engenheiro
Cá serás pá de pedreiro
Eu não sei donde tu vens
Mas és mais que os teus papéis
Dão-lhe biscates nas obras
Ao negro e sem regalias
Come merda se houver sobras
Nos bairros com moradias
No Largo de São Domingos
Caminhava rente às casas
Entre vapores e pingos
Como pássaro sem asas
Há quem o olhe de lado
Julgando que é do daesh
Se foste colonizado
Pagas caro e sempre em cash
Não sou pedra nem calhau
Posso andar para mudar
O meu lugar
Para mudar o meu lugar
Para mudar
(com a música da canção popular «Ao passar a ribeirinha» e de «Quatro quadras soltas» de Sérgio Godinho)
letra escrita numa oficina de canções na Casa da Achada
Junho de 2018
Ao passar na Mouraria
Tropecei num sarraceno
Não era trigo nem joio
Era o meu irmão moreno
Donde vens tu ó amigo?
Venho de longa jornada
Não tenho papéis nem visto
Amanhã não faço nada...
Mas sou quase teu vizinho
E moro num pardieiro
Sem papéis e sem pilim
Nem cama de corpo inteiro
À falta de papelada
Diz a lei dos burocratas
Se o gajo vem das Arábias
Só merece um vão der escadas
Não sou pedra nem calhau
Posso andar para mudar
O meu lugar
Para mudar o meu lugar
Para mudar
(continua com a música das «Quatro quadras soltas»)
E por não ter documentos
Fui ao SEF e pus-me à espera
Mas faltava-me uma carta
E o carimbo que não dera
Então fui recambiado
Sem emprego nada feito
E para arranjar trabalho
Procuro papel de jeito
Se lá eras engenheiro
Cá serás pá de pedreiro
Eu não sei donde tu vens
Mas és mais que os teus papéis
Dão-lhe biscates nas obras
Ao negro e sem regalias
Come merda se houver sobras
Nos bairros com moradias
No Largo de São Domingos
Caminhava rente às casas
Entre vapores e pingos
Como pássaro sem asas
Há quem o olhe de lado
Julgando que é do daesh
Se foste colonizado
Pagas caro e sempre em cash
Não sou pedra nem calhau
Posso andar para mudar
O meu lugar
Para mudar o meu lugar
Para mudar
Problema agudo n.º 1
Problema agudo n.º 1 (cadavre exquis)
Letra e música criadas numa oficina de canções na Casa da Achada em Junho de 2018
quando o intestino aperta
e a alma quer sair
daqui
não
dá
água de beber às cabras
que os campos estão secos
secos também estão
mas nós trazemos água
com a água regamos
e cresce e cresce e cresce
aparece! salta! foge!
deita! rebola! anda! busca!
medidas inteiras redondas
meias bêbadas quase
malucas as buscas brutas
brutas que nem umas portas
solo:
é um problema agudo
e uma questão grave
que não vão lá com meias medidas
toda a gente:
que bem medida
não há meia
nem sapato
medida meia
não é meia
nem sapato
«isso é outra questão»
Letra e música criadas numa oficina de canções na Casa da Achada em Junho de 2018
quando o intestino aperta
e a alma quer sair
daqui
não
dá
água de beber às cabras
que os campos estão secos
secos também estão
mas nós trazemos água
com a água regamos
e cresce e cresce e cresce
aparece! salta! foge!
deita! rebola! anda! busca!
medidas inteiras redondas
meias bêbadas quase
malucas as buscas brutas
brutas que nem umas portas
solo:
é um problema agudo
e uma questão grave
que não vão lá com meias medidas
toda a gente:
que bem medida
não há meia
nem sapato
medida meia
não é meia
nem sapato
«isso é outra questão»
Ontem a pedra
Ontem a pedra
Poema n.º 22 de «Le feu qui dort», de Mário Dionísio (tradução do francês de Regina Guimarães)
Música criada numa oficina da Casa da Achada em Junho de 2018
Ontem
a pedra
Amanhã
a mão
Agora
desejo apenas
Ontem
a mão
Amanhã
a pedra
Depois de amanhã
as pedras
Quem passa diz
zás
Coro dos caídos
Coro dos caídos
Letra e música de José Afonso
Arranjo do coro da Achada
Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia
Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência
Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras
Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora
Letra e música de José Afonso
Arranjo do coro da Achada
Cantai bichos da treva e da aparência
Na absolvição por incontinência
Cantai cantai no pino do inferno
Em Janeiro ou em maio é sempre cedo
Cantai cardumes da guerra e da agonia
Neste areal onde não nasce o dia
Cantai cantai melancolias serenas
Como o trigo da moda nas verbenas
Cantai cantai guizos doidos dos sinos
Os vossos salmos de embalar meninos
Cantai bichos da treva e da opulência
A vossa vil e vã magnificência
Cantai os vossos tronos e impérios
Sobre os degredos sobre os cemitérios
Cantai cantai ó torpes madrugadas
As clavas os clarins e as espadas
Cantai nos matadouros nas trincheiras
As armas os pendões e as bandeiras
Cantai cantai que o ódio já não cansa
Com palavras de amor e de bonança
Dançai ó parcas vossa negra festa
Sobre a planície em redor que o ar empesta
Cantai ó corvos pela noite fora
Neste areal onde não nasce a aurora
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Primavera nos dentes
Poema de João
Apolinário de «Morse de Sangue»
Música: Pedro
Rodrigues/ coro da Achada
Quem tem consciência
para ter coragem
Quem tem a força de
saber que existe
e no centro da própria
engrenagem
inventa a contra-mola que resiste
inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo
derrotado
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera.
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera.
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