Letras

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Cantiga bailada

Cantiga bailada
(versão «As casas da Mouraria», letra de José Castro para a música de Brigada Victor Jara) 

Adeus ó rua da fonte
(Eras tão bonita e eu já te não quero)
Calçadinha mal segura (x2)
Quando passa o meu amor
(Eras tão bonita...)
Não há pedra que não bula (x2)

Óló alarilolela Óló alariloló


Desde a ribeira ao Castelo

Subia só p'ra te olhar

Mas hoje já não te encontro

Para onde foste morar

Óló alarilolela Óló alariloló


As casas da Mouraria

Hão de ter gente outra vez

Vivendo as suas vidas

Sem mágoas ao fim do mês

Óló alarilolela Óló alariloló
Óló alarilolela Óló alariloló

quinta-feira, 22 de junho de 2023

Cantiga de uma greve de Verão

 
Cantiga de uma greve de Verão
letra e música de Vitorino (1975)

Seara madura de Junho
Campos eternos sem fim
Abro o peito fecho o punho
Quando te inclinas para mim
 
Minha vila não está quieta
No tamanho do horizonte
Desconfia e fica alerta
Do sorriso de boi manso
Do morgado arrogante
 
Quando o trigo amadurece
Chega-me a força cá dentro
Como a da espiga pró grão
Troco foice por espingarda
Porque má paga é que não
 
Alentejanos prá frente
O sol está do nosso lado
Caçadeira atrás da porta
Queremos um Verão quente
Para a herdade do morgado.

terça-feira, 9 de maio de 2023

Canto dos Torna-Viagem

Canto dos Torna-Viagem
José Mário Branco (Resistir é vencer, 2004)

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratóriaNo coração da históriaQue consumiste a glóriaNum jantar
Foi como se PortugalP'ra seu bem e p'ra seu malAndasse em busca dum finalP'ra começar
Ávida violênciaReverso da inocênciaSal da inconsciênciaQue há no mar
Império tão pequeninoDe portulano caprinoBolsos de sina e de sinoEm cada mão
Pátria imagináriaDe concistência váriaAfirmação diáriaDo teu não
As malas dos portuguesesSão como os olhos das rezesQue se mastigam três vezesEm cada chão
Cândida ignorânciaGrande desimportânciaOs frutos da errânciaJá lá vão
Ai Senhora dos Navegantes me valeiDe África, do sal e do mar só eu sobreiFoi p'ra me encontrar que amanhã já me perdiLonge vai o tempo em que eu já não estou aqui
Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais-SinaisSocorrei estes desperdícios coloniaisFoi na noite fria que o dia me cegouInda agora fui, inda agora cá não estou
Ai Senhora dos Esquecidos me lembraiO caminho que p'ra lá vem e p'ra cá vaiEtecetera e tal, Portugal é nós no marInda agora vim e estou longe de chegar
Ai Senhora dos meus Iguais que eu subtraíFoi pataca a mim e não foi pataca a tiSe é tão grande a alma na palma do meu serAlgum dia eu vou finalmente acontecer
Por que não tentar outro ponto de vista?A história dos outros, quem a contará?Se qualquer colónia sem colonialistaSão os que já estavam lá
Tentemos então ver a coisa ao contrárioDo ponto de vista de quem não chegouPois se eu fosse um preto chamado Zé MárioEu não era quem eu sou
Os navegadores chegaram cá a casaE foi tudo novo p'ra eles e p'ra mimA cruz e a espada e os olhos em brasaPor que me trataste assim?
Não é culpa nossa se quem p'ra cá veioNão se incomodou ao saber do horrorA história não olha a quem fica no meioE o que foi é de quem fôr

Ovo (excerto)

Ovo
(excerto)
(Manel Cruz)

Um é bom pra fumar
Dois é bom para lamber
Três pra dizer
Quatro é bom pra falar
Cinco para ouvir
Seis para ir lá para trás
Sete eles sentem-se mais
Oito eles sabem que o são
Nove não cabem na cela
Dez rebentam com ela

(...)

Sento il fischio

 Sento il fischio


Sento il fischio del vapore è il mio amore che va via,
e l’è partito per l’Albania, chi sa quando ritornerà.
Ritornerà sta primavera con la spada insanguinata,
e se mi trova già maritata o che pena o che dolor.
O che pena o che dolor che brutta bestia è ormai l’amore,
starò piuttosto senza mangiare ma l’amore la voglio fare.
Mi hanno chiusa in un convento e m’han tagliato i miei capelli,
ed erano biondi e ricci e belli e m’han tagliato le mie beltà.
Sento il fischio del vapore è il mio amore che va via…
Sento il fischio del vapore è il mio amore che va via...

Possível o impossível

Possível o impossível
(Cânone com excertos poemas de Mário Dionísio)

possível o recomeço
possível o sobressalto
possível o sonho solto
possível um mundo novo

possível o impossível

longe é o mais perto
longe é o mais perto longe

Cão Raivoso

Cão Raivoso
Sérgio Godinho (1974)

Mais vale ser um cão raivoso
Do que um carneiro
(Do que um carneiro)

A dizer que sim ao pastorO dia inteiro(O dia inteiro)
E a dar-lhe de lã e da carne e da vidaE do traseiro
Mais vale ser diferente do carneiroUm cão raivoso que sabe onde ferraUm cão raivoso que sabe onde ferraOlhos atentos e patas na terra
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado
Mais vale ser um cão raivosoQue um caranguejo(Que um caranguejo)
Que avança e recua e depoisSolta um bocejo(Solta um bocejo)
E que quando fala só se houve a gargantaNo gargarejoMais vale não ser como o caranguejoUm cão raivoso que sabe onde ferraUm cão raivoso que sabe onde ferraOlhos atentos e patas na terra
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado
Mais vale ser um cão raivosoQue uma sardinha(Que uma sardinha)
Metida, entalada na lataEducadinha(Educadinha)
Pronta a ser comida, engolida, digeridaE cagadinhaMais vale ser diferente da sardinhaUm cão raivoso que sabe onde ferraFerra fascistas e chama-lhe um figoOlhos atentos e patas na terra
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado
Mais vale ser um cão raivosoDentes à mostra(Dentes à mostra)
Estar sempre pronto a morderE a dar resposta(E a dar resposta)
A toda e qualquer podridão escondidaDentro da crostaDentro da crosta das belas ideiasGato escondido de rabo de foraDentro da crosta das belas ideiasGato escondido de rabo de fora
De foraDe foraDe foraDe fora
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado