Letras

terça-feira, 9 de maio de 2023

Canto dos Torna-Viagem

Canto dos Torna-Viagem
José Mário Branco (Resistir é vencer, 2004)

Foi no sulco da viagem
Já sem armas nem bagagem
Nem os brazões da equipagem
Foi ao voltar

Pátria moratóriaNo coração da históriaQue consumiste a glóriaNum jantar
Foi como se PortugalP'ra seu bem e p'ra seu malAndasse em busca dum finalP'ra começar
Ávida violênciaReverso da inocênciaSal da inconsciênciaQue há no mar
Império tão pequeninoDe portulano caprinoBolsos de sina e de sinoEm cada mão
Pátria imagináriaDe concistência váriaAfirmação diáriaDo teu não
As malas dos portuguesesSão como os olhos das rezesQue se mastigam três vezesEm cada chão
Cândida ignorânciaGrande desimportânciaOs frutos da errânciaJá lá vão
Ai Senhora dos Navegantes me valeiDe África, do sal e do mar só eu sobreiFoi p'ra me encontrar que amanhã já me perdiLonge vai o tempo em que eu já não estou aqui
Ai Senhora dos Talvez-Muitos-Mais-SinaisSocorrei estes desperdícios coloniaisFoi na noite fria que o dia me cegouInda agora fui, inda agora cá não estou
Ai Senhora dos Esquecidos me lembraiO caminho que p'ra lá vem e p'ra cá vaiEtecetera e tal, Portugal é nós no marInda agora vim e estou longe de chegar
Ai Senhora dos meus Iguais que eu subtraíFoi pataca a mim e não foi pataca a tiSe é tão grande a alma na palma do meu serAlgum dia eu vou finalmente acontecer
Por que não tentar outro ponto de vista?A história dos outros, quem a contará?Se qualquer colónia sem colonialistaSão os que já estavam lá
Tentemos então ver a coisa ao contrárioDo ponto de vista de quem não chegouPois se eu fosse um preto chamado Zé MárioEu não era quem eu sou
Os navegadores chegaram cá a casaE foi tudo novo p'ra eles e p'ra mimA cruz e a espada e os olhos em brasaPor que me trataste assim?
Não é culpa nossa se quem p'ra cá veioNão se incomodou ao saber do horrorA história não olha a quem fica no meioE o que foi é de quem fôr

Ovo (excerto)

Ovo
(excerto)
(Manel Cruz)

Um é bom pra fumar
Dois é bom para lamber
Três pra dizer
Quatro é bom pra falar
Cinco para ouvir
Seis para ir lá para trás
Sete eles sentem-se mais
Oito eles sabem que o são
Nove não cabem na cela
Dez rebentam com ela

(...)

Sento il fischio

 Sento il fischio


Sento il fischio del vapore è il mio amore che va via,
e l’è partito per l’Albania, chi sa quando ritornerà.
Ritornerà sta primavera con la spada insanguinata,
e se mi trova già maritata o che pena o che dolor.
O che pena o che dolor che brutta bestia è ormai l’amore,
starò piuttosto senza mangiare ma l’amore la voglio fare.
Mi hanno chiusa in un convento e m’han tagliato i miei capelli,
ed erano biondi e ricci e belli e m’han tagliato le mie beltà.
Sento il fischio del vapore è il mio amore che va via…
Sento il fischio del vapore è il mio amore che va via...

Possível o impossível

Possível o impossível
(Cânone com excertos poemas de Mário Dionísio)

possível o recomeço
possível o sobressalto
possível o sonho solto
possível um mundo novo

possível o impossível

longe é o mais perto
longe é o mais perto longe

Cão Raivoso

Cão Raivoso
Sérgio Godinho (1974)

Mais vale ser um cão raivoso
Do que um carneiro
(Do que um carneiro)

A dizer que sim ao pastorO dia inteiro(O dia inteiro)
E a dar-lhe de lã e da carne e da vidaE do traseiro
Mais vale ser diferente do carneiroUm cão raivoso que sabe onde ferraUm cão raivoso que sabe onde ferraOlhos atentos e patas na terra
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado
Mais vale ser um cão raivosoQue um caranguejo(Que um caranguejo)
Que avança e recua e depoisSolta um bocejo(Solta um bocejo)
E que quando fala só se houve a gargantaNo gargarejoMais vale não ser como o caranguejoUm cão raivoso que sabe onde ferraUm cão raivoso que sabe onde ferraOlhos atentos e patas na terra
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado
Mais vale ser um cão raivosoQue uma sardinha(Que uma sardinha)
Metida, entalada na lataEducadinha(Educadinha)
Pronta a ser comida, engolida, digeridaE cagadinhaMais vale ser diferente da sardinhaUm cão raivoso que sabe onde ferraFerra fascistas e chama-lhe um figoOlhos atentos e patas na terra
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado
Mais vale ser um cão raivosoDentes à mostra(Dentes à mostra)
Estar sempre pronto a morderE a dar resposta(E a dar resposta)
A toda e qualquer podridão escondidaDentro da crostaDentro da crosta das belas ideiasGato escondido de rabo de foraDentro da crosta das belas ideiasGato escondido de rabo de fora
De foraDe foraDe foraDe fora
Viva, viva o cão raivosoTem o pelo eriçadoSeu dente é gulosoE o seu faro ajustadoCão raivoso, cão raivoso, cuidado

Siam del popolo gli arditi

 
Siam del popolo gli arditi
Leoncarlo Settimelli (1967-1979)
 
Siam del popolo gli arditi
contadini ed operai
non c'è sbirro non c'è fascio
che ci possa piegar mai.
 
E con le camicie nere
un sol fascio noi faremo
sulla piazza del paese
un bel fuoco accenderemo.
 
1. Ci dissero ma
cosa potremo fare
con gente dalla
mente tanto confusa.
 
E che non avrà
letto probabilmente
neppure il terzo
libro del Capitale.
 
Neppure il terzo
libro del Capitale.
 
2. Portammo il
silenzio nelle galere
perché chi stava
fuori si preparasse.
 
E in mezzo alla
tempesta ricostruisse
un fronte proletario
contro il fascismo.
 
Un fronte proletario
contro il fascismo.
 
3. Ci siamo ritrovati
sulle montagne
e questa volta
nostra fu la vittoria.
 
Ecco quello che
mostra la nostra storia
se noi siamo divisi
vince il padrone.
 
Se noi siamo divisi
vince il padrone.


Polesine

Polesine
Luigi Fossati (1961)
 
Tera e aqua, aqua e tera
da putini che da grandi:
« Siora tera, ai so comandi,
siora aqua, bonasera;
bonasera ».
 
Tera e aqua! Se lavora
soro .un sole che cusina
Tera e aqua! A la matina
se scomissia de bonora; de
bonora.
 
Tera e aqua! Tera nuda,
gnente piante, gnente ombrìa.
Sta fadiga mai finia:
la comanda che se suda;
che se suda.
 
Tera e aqua! -A mezogiorno
quel paneto che se magna
no gh'è aqua che lo bagna
e ghé aqua tuto intorno;
tuto intorno.
 
Tera e aqua! Co vien sera
tuti intorno, dona e fioi,
a una tecia de fasoi,
se ghe fa un bona siera;
bona siera.
 
Tera e aqua! Po la la note
se se buta sora el leto
e se sogna, par dispeto
aqua e tera, piene e rote;
piene e rote.
 
Sempre aqua e sempre tera
da putini che da grandi:
« Siora tera, ai so comandi... »;
po se crepa e... bonasera;
bonasera.

Margoudi e Alexandris

Margoudi e Alexandris

To Margúδi ki o Alexandrís
vgénun stin avlí kryfá kryfá (x2)

Ts’eíδ i geituniá ke puspuriz'
ts’eíδ i mána tis ki murmuríz' (x2)

 Sto `pa vre Margúδi m’ na mi vgén’
ékso stin avlí kryfá kryfá (x2)

Áma théleis mána, δeíre me (cânone)
páli egó tha vgéno stin avlí
gia na vlépo ton Aleksand (x2)

 

Margoudi and Aleksandris,
they meet secretly in the yard;

the neighbourhood is gossiping,
and her mother is muttering:

 "I told you Margoudi not to go out,
out in the backyard secretly."

 "If you wish, mother, beat me;
I will still be going out in the yard,
in the yard to see Aleksandris."


Το Μαργούδι κι ν’ Αλεξαντρής
βγαίνουν στην αυλή κρυφά κρυφά

 Τσ’ είδγι γειτουνιά και πουσπουριζ'
τσ’ είδγί μάνα της κι μουρμουρίζ'

 Στο `πα βρε Μαργούδι μ’ να μη βγαίν’
ς έξω στην αυλή κρυφά κρυφά

 Άμα θέλεις μάνα, δείρε με
πάλι εγώ θα βγαίνω στην αυλή
για να βλέπω τον Αλεξαντρή

(todo x2)